Loading...
Quando ela o apanha...

Quando ela o apanha...

Como é que se chama aquele buraquinho da porta de casa que serve para espreitar? Olho mágico? Enfim, foi por aí que eu descobri.

Impulsivamente ia dizer que a culpa é minha, eu é que insisti em termos um cão, mas que culpa tenho eu que, ao passear o cão, o meu marido passasse a conhecer melhor a vizinha do lado e... enrolar-se com ela? Culpa nenhuma. Na verdade foi um choque. Achava que estávamos bem. Óptimos.

Depois do cão, o desafio seria um filho. Barrque, arrepios, será que já dormiram juntos? Que nojo, se sim. Ainda ontem estivemos os dois, velas acesas como ele gosta... não quero pensar nisso.
Mas devia pensar em qualquer outra coisa, em tudo menos na imagem que está presa nos meus olhos, pelo buraquinho da nossa porta branca. Ouvi o elevador e pensei “que bom, aí vêm eles, o meu homem (que nunca mais o será) e o nosso “Palitos”. E espreito, de sorriso ansioso, à espera de os ver voltar do passeio, embora pôr-nos debaixo de uma manta, ver um filme enroscados? E lá estavam eles, sorrisos derretidos, um beijo rápido, furtivo, na boca, a pensar que ninguém os via. Agora senti impulsivamente arrependimento de ter espreitado pelo buraco mas, nem pensar, o que seria viver na ignorância? Até quando?

Fugi a tremer para o nosso quarto. O cérebro a mil. Aquilo não foi um primeiro beijo. Quantas vezes é que ele foi passear o cão? Há quanto tempo é que o passeio da noite passou a ser dele, aquelas tarefas que, sem combinar, ficam divididas, eu arrumo a cozinha, ele passeia o Palitos (que ironia, agora, o nome... posso dizer que tenho um par deles).

Agora vai aqui chegar, vai dizer-me que temos de falar, vai abrir o jogo e eu vou conseguir não chorar.
Mas não. Entra no quarto, acaricia-me as costas, que tenho voltadas, não consigo olhar para ele. Vou lavar os dentes, queres ver um filme?
Não. Mas não lhe digo. Murmuro um ahã, mas não vou conseguir enrolar-me na manta, nem deitar-me na cama de pé dado. Está tudo acabado.

Mas agora vou para onde? Mil perguntas novamente. O futuro, as finanças, a rotina, o Palitos, os meus pais, tudo. A maldita vizinha. E é assim que acaba uma história de amor, que afinal não era amor. Outra ironia, o nome da vizinha é Vitória. Vitória vitória, acabou-se a história.

Apr 12, 2019

1 Comentários

  1. Anónimo

    Jan 23, 2020
    Palitos? ainda bem que não tenho cão! ahahaha

Deixar comentário

A sua opinião é importante para mim. Os dados indicados não serão divulgados, apenas nome e mensagem.


* Campos obrigatórios

Relacionados

Outros posts que te podem interessar.