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Um dos desafios da maternidade

Um dos desafios da maternidade

No outro tive uma iluminação com o meu filho de 7 anos, o Diogo. Um esclarecimento. Fui buscá-lo à escola e lembrei-o que tinha de levar o livro de matemática para casa porque tinha TPCs. Ele refilou. “A minha professora não me disse nada”. “Mas disse a mim, meu amor. Faltaste na Sexta porque estavas doente, não foi? Eu pedi à professora para me dizer os TPC e ela respondeu que eram de matemática mas que eram para entregar terça feira. Hoje é segunda, temos de os fazer.”

“Mas ela não me disse nada.”, repete ele, atira a mochila ao chão, começa a chorar cheio de raiva e ameaça sair sozinho da escola. Não ameaçou com palavras, seguiu em frente, levou a sua fúria até ao portão, mesmo numa de seguir caminho.

Fiquei furiosa. Fiquei à espera que sua alteza fosse buscar o livro de matemática e lá fomos para casa, comigo a dizer “não mereço o que me estás a fazer, cheguei à escola cheia de saudades e em vez de receber um sorriso, levo com a mochila a ser atirada ao chão e é um mar de frete até casa.” Ainda me pediu, no carro, para desligar o rádio. “Nem pensar. Preciso de alegria, e já que tu estás a passar essa má energia, preciso de música para desanuviar”.

Chegados, então, a casa, mandei-o lavar as mãos e avançar com os TPS. A fúria do miúdo.

Quando ele estava sentado à mesa para começar, passei por lá e estava a chorar baixinho, cheio de fúria.
E aí acabei com as respostas agressivas.
 
Sentei-me, respirei fundo e perguntei: “O que é que se passa?” E ele chora, e não sabe explicar, porque tem 7 anos e nem ele percebe. Mas está furioso e ainda por cima nervoso porque está no 2º ano. E então eu lembro-me que eu é que sou a adulta e tento perceber. Não é a idade e a maturidade que deviam ensinar isto? Vamos lá.
 
“Tens medo de não conseguir fazer o trabalho? Claro que tens medo, se calhar é sobre alguma coisa que a professora ensinou na sexta feira e tu não sabes porque faltaste. Não tens de saber. Não tens de ter medo de falhar”. (Omiti que até nós adultos ainda temos esse medo. Que não cresce como nós, não se enche de maturidade para se resolver por si) “Pede ajuda à mãe. Ou diz à professora - Desculpe, não percebi, pode explicar outra vez? - Ou até lembra-a que faltaste à última aula.” E ele olha para mim e as lágrimas continuam nos olhos mas já deixaram de cair pela bochecha abaixo. “Ou, meu amor” - continuo - “é mesmo trabalho referente a matéria antiga e é normal que não te lembres. Tiveste 3 meses de férias e não levaste trabalho. Não treinaste. Não faz mal. Vais apanhar o ritmo num instante.”

E aí, também mais tranquila, (re)lembro-me que a calma traz lucidez e encontrei mais argumentos: “Lembras-te, no ano passado, estavas nervoso quando foste para o 1º ano, porque não sabias ler? Claro que não sabias, ainda não tinhas aprendido. E no fim do primeiro ano já o fazias na maior. Mas sabes porquê? Porque passaram mais de 300 dias.” Pequeno esboço de sorriso naquela boca que adoro.
 
“Sabes guiar?”
“Sei.”
“Não, meu amor, não é girar o volante, conseguias pegar no carro e passear por Lisboa?
“Não.”
“Claro que não. Eu também não sabia. Sabes quantas aulas é que eu tive para aprender a guiar? Dentro de um carro, mesmo. Treinar os pedais, o volante, as mudanças? 25 aulas.” (não me lembro do número certo mas é irrelevante. Este soa a muito).
 
Ele volta a olhar-me nos olhos. Antes estava a olhar para o infinito mas a ouvir-me. E olha-me de frente e as lágrimas desapareceram. Já se acalmou.
 
E eu penso, depois de tanta tensão: era medo. Ele reagiu como reagiu por medo. E aí disse-lhe. “Não tens que ter medo de errar. Não podes responder torto à mãe, nem atirar a mochila ao chão, mas se não errasses nada, até era estranho.
 
Estás a ver este primeiro exercício que já sabemos o que é para fazer? Vais ter de escrever os números por extenso, não é? Não te lembravas o que quer dizer “extenso”, não faz mal, é normal. Não lias esta palavra há meses. E mesmo que faças erros a escrever, não faz mal. É normal, meu amor, estou a contar com isso. Estavas a dizer que não sabes nada, que estás no segundo ano, mas espera. Ainda não fizeste o 2º ano. Ainda agora começou.”
 
E penso o quanto ele vai crescer e o quanto também preciso de o fazer. Educar é tramado. E ser mãe é o maior desafio de todos. Que este discernimento chegue mais vezes. E mais cedo no conflito...

Apr 12, 2018

3 Comentários

  1. Utilizador Anónimo

    Dec 08, 2019
    Não há dúvida que educar e dizer as palavras certas no momento certo é muito difícil! Especialmente depois de um dia de trabalho!!! ☺️
  2. Utilizador Anónimo

    Dec 08, 2019
    Uma mãe real, verdadeira, não esconde as falhas. É aí que reside a perfeição. Obrigada Mariana.
  3. Luísa

    Mar 23, 2019
    Acontece tanto comigo! Obrigada pela partilha
    • Mariana Alvim

      Mar 27, 2019
      Luísa, eu é que agradeço :)

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